Certos Medicamentos Podem Reduzir o Risco de Demência – Um Neurocientista Explica Como

Crédito: Pixabay
A demência não tem cura e, embora alguns novos medicamentos possam retardar a sua progressão, continuam a ser caros e apenas marginalmente eficazes para muitos. No entanto, um estudo recente conduzido por Cambridge associa os medicamentos de prescrição comummente utilizados – tais como antibióticos, antivirais e vacinas – a um menor risco de demência.
Uma vez que estes medicamentos já estão aprovados e têm perfis de segurança bem conhecidos, poderiam acelerar os ensaios clínicos para tratamentos da demência.
Os investigadores analisaram os registos de saúde de 130 milhões de pessoas, incluindo um milhão com demência. Identificaram ligações entre os medicamentos sujeitos a receita médica e o risco de demência e, em seguida, analisaram 14 estudos para explorar essas ligações. As suas conclusões: os antibióticos, os antivirais e os anti-inflamatórios foram todos associados a um menor risco de demência. Além disso, as vacinas contra a hepatite A, a febre tifoide e a difteria apresentaram um efeito protetor semelhante.
No entanto, o estudo não registou o tempo que os participantes tomaram estes medicamentos ou a frequência com que lhes foram prescritos, o que torna essencial uma investigação mais aprofundada.
Como é que estes medicamentos podem proteger o cérebro
Os investigadores sugerem que estes medicamentos podem reduzir o risco de demência ao diminuir a inflamação, controlar as infecções e promover a saúde do cérebro. Isto está de acordo com a teoria de que as infecções virais e bacterianas podem desencadear tipos comuns de demência.

Os medicamentos já existentes e aprovados poderão constituir um atalho para futuros tratamentos. (MirageC/Getty Images)
Mesmo as infecções de curta duração podem prejudicar o cérebro, desencadeando uma resposta imunitária excessiva, danificando as células cerebrais e perturbando a memória. Os antibióticos e os antivirais combatem as infecções, reduzindo esta reação imunitária excessiva. As vacinas previnem totalmente as infecções, reduzindo o risco de lesões cerebrais a longo prazo.
Curiosamente, outros estudos associaram também a vacina BCG (contra a tuberculose) a uma redução do risco de Alzheimer, o que reforça a relação entre infeção e demência.
O estudo concluiu também que os medicamentos anti-inflamatórios, nomeadamente os AINE, como o ibuprofeno, podem proteger contra o declínio da memória. Isto vem juntar-se à evidência crescente de que a inflamação crónica desempenha um papel fundamental na demência.
A inflamação ajuda o corpo a combater lesões e infecções, mas quando se torna crónica, liberta substâncias químicas que danificam as células cerebrais e perturbam a comunicação entre elas, levando à perda de memória. Os medicamentos anti-inflamatórios bloqueiam certas moléculas que provocam a inflamação, protegendo potencialmente as células cerebrais dos danos a longo prazo.
Resultados mistos para outros medicamentos
As conclusões do estudo sobre medicamentos para a tensão arterial, antidepressivos e medicamentos para a diabetes foram menos consistentes. Alguns destes medicamentos foram associados tanto a um menor como a um maior risco de demência, possivelmente devido aos seus efeitos variados nos processos biológicos.
Por exemplo, os inibidores da ECA e os bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRA) melhoram a saúde do cérebro aumentando o fluxo sanguíneo e reduzindo a inflamação, ao passo que os beta-bloqueadores diminuem principalmente o ritmo cardíaco e podem não ter benefícios neuroprotectores. Do mesmo modo, os medicamentos para a diabetes mostraram efeitos mistos, embora a própria diabetes aumente o risco de demência, o que torna mais difícil isolar o impacto do medicamento.
Próximos passos na investigação da demência
É necessária mais investigação para confirmar estes resultados e compreender como estes medicamentos influenciam o risco de demência. Os ensaios aleatórios controlados serão cruciais para determinar se os medicamentos existentes podem ser reorientados para a prevenção da demência. A investigação dos mecanismos biológicos subjacentes a estes efeitos poderá também revelar novos conhecimentos sobre as causas da demência.
Este estudo sublinha a importância de abordar a inflamação e as infecções como parte de uma estratégia mais alargada de saúde cerebral. Ao reorientar os medicamentos existentes, os investigadores podem acelerar o desenvolvimento de tratamentos – oferecendo uma nova esperança na luta contra a demência.
Leia o Artigo Original: Science Alert
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