Medicamento para Doença Rara Transforma Sangue Humano em Veneno para Mosquitos
Cientistas propuseram uma abordagem inovadora para controlar as populações de mosquitos e combater a malária: adicionar ao sangue humano um medicamento tóxico para os insectos, de modo a que quando os mosquitos se alimentam desse sangue, este marque a sua última refeição.
O medicamento em questão é a nitisinona, e um estudo de prova de conceito liderado por uma equipa da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido, mostrou que a substância pode ser mortal para os mosquitos, mesmo em baixas doses no sangue humano.
Resultados eficazes em mosquitos que se alimentam de sangue tratado
Quando os mosquitos se alimentaram do sangue de três pessoas que já tomavam nitisinona para tratar uma doença genética, os insetos morreram em 12 horas.
A nitisinona já está aprovada para tratar certas doenças hereditárias raras. Atua bloqueando a produção de uma proteína específica, o que leva à redução de subprodutos tóxicos no corpo humano. No entanto, quando os mosquitos ingerem sangue contendo nitisinona, morrem rapidamente.

Os investigadores analisaram como a nitisinona no sangue humano afetava os mosquitos. (Lee R. Haines)
Uma forma de impedir a propagação de doenças transmitidas por insetos é tornar o sangue de animais e humanos tóxico para estes insetos hematófagos, afirma o microbiologista Lee R. Haines, da Escola de Medicina Tropical de Liverpool.
As nossas descobertas sugerem que o uso de nitisinona pode ser uma nova ferramenta complementar promissora para controlar doenças transmitidas por insetos, como a malária.
As preocupações com o impacto ecológico e a resistência
Embora esta seja ainda uma ideia de prova de conceito, o entusiasmo deve ser moderado pelos resultados iniciais de outros medicamentos antiparasitários que podem matar insectos vitais para os ecossistemas e podem não reduzir necessariamente as taxas de malária.
Estudos anteriores mostram que a nitisinona não parece matar outros insetos vitais que desempenham funções na polinização, mas os investigadores não estudaram bem os seus impactos ecológicos mais amplos. Os autores do estudo sugerem que a incorporação de medicamentos para matar mosquitos em programas de administração de medicamentos em massa pode fazer com que a resistência aos inseticidas se torne um problema no futuro.
Os investigadores testaram os efeitos do sangue contaminado com nitisinona nos mosquitos, além de utilizarem modelos matemáticos para descobrir o impacto de diferentes doses nas populações humanas simuladas. Descobriram que o medicamento era eficaz na matança de mosquitos de todas as idades, incluindo os insectos mais velhos, que têm maior probabilidade de transmitir a malária.
A equipa comparou a nitisinona à ivermectina, que já é utilizada como uma potencial ferramenta para matar mosquitos enquanto se alimentam, referindo que medicamentos antiparasitários como este não são uma ideia nova.
Embora a ivermectina administrada a humanos ou a vacas possa matar os mosquitos em concentrações mais baixas do que a nitisinona, o novo medicamento atua mais rapidamente, geralmente no espaço de um dia. Também permanece no sangue humano durante mais tempo, o que torna mais provável que os mosquitos entrem em contacto com ele.
Desempenho superior e efeito duradouro da nitisinona
Pensamos que, se quiséssemos seguir este caminho, a nitisinona teria de ter um melhor desempenho do que a ivermectina, diz o parasitologista Álvaro Acosta Serrano, da Escola de Medicina Tropical de Liverpool. De facto, o desempenho da nitisinona foi fantástico.
Tem uma semi-vida muito maior no sangue humano do que a ivermectina, o que significa que a sua atividade de matar mosquitos permanece a circular no corpo humano durante muito mais tempo. Isto é fundamental quando aplicado no terreno por razões de segurança e económicas.
Ao contrário da ivermectina, a nitisinona não atua no sistema nervoso, pelo que é menos neurotóxica. Além disso, estudos mostram que a ivermectina mata outros insetos.
Uma nova esperança na luta contra a malária
A malária ainda causa mais de meio milhão de mortes todos os anos, e os esforços para a combater estagnaram face ao crescimento populacional e à crescente resistência da doença aos tratamentos.
Esta nova abordagem oferece alguma esperança renovada para o combate à malária e, com mais investigação, poderá apoiar outras medidas para impedir a propagação da doença – sem o risco de danos para os seres humanos ou para a vida selvagem.
Acosta Serrano diz: Também podemos usar a nitisinona como insecticida porque é um composto versátil.
Leia o Artigo Original: Science Alert
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